1 de fevereiro de 2015

Gene infeliz, este

Há pessoas que nascem condenadas à infelicidade. E há outras que nascem já da infelicidade. Ele diz que não quer continuar a ouvi-la a gritar na rua e que vai embora. "Não entres em casa. Filha, o pai vai embora!". Esta foi a última coisa que ele lhe disse antes de atravessar o jardim. Ela, com a menina nos seus três anos ao colo, compôs o gorro à filha e levantou-se atrás dele. Quando atravessou o jardim, continuaram a discussão que acabou com um empurrão dela e um estalo dele. E a menina sempre ao colo, ali, a balançar para um lado e para o outro enquanto os pais, infelizes, constroem o mundo infeliz da filha.
Ele, infeliz porque não tem o quer. Ela, infeliz "porque as pessoas não podem falar do que não sabem", dizia a mulher, aos gritos, do banco do jardim e que eu ouvia aqui da esplanada.
A infelicidade deles dá-lhes energia para se afundarem nela mais ainda. E os gritos da pequena não os comovem, e misturados com as palavras de ódio de cada um deles parecem dar ainda mais gás ao estado animalesco deles mesmos.
A criança merece isto? Merece ter nascido no meio da ameaça de um "o pai vai-se embora" e da proibição de uma mãe, esta mãe, de entrar em casa? O espaço onde ela tem que crescer? E tem que se submeter à agressão entre aqueles que devem educá-la para saber que a violência não leva ninguém a lado nenhum?
É pai aquele que condena o filho à tristeza, à pressão da infelicidade? É mãe aquela que não protege os interesses de um filho sobrepondo os seus aos gritos? Que mãe é aquela que condena os filhos à prodidão do mundo? E quem sou eu para julgar o que quer que seja?
Não tenho filhos. Mas quero ter e quando tiver quero que sejam parte de mim e não minha posse, meu objecto que, os tendo, andem no meu bolso a ultrapassar os trilhos difíceis por onde me meto. Os que procuro por meu interesse, minha decisão, sem consulta do futuro daqueles.
São três infelizes e um deles porque calhou. Porque não fogem a isso, não procuram entregar o bem-estar de uma vida que produziram, suponho, com amor. Com vontade.
A questão é: será que foi? Se foi, acabou ao longo dos três anos da criança?
Que a lotaria natural e a justiça estejam do lado destas crianças quando os pais não estão. E que não seja esta uma repetição, uma reprodução da espécie, que este gene infeliz seja recessivo e não se transmita para que o futuro se livre destes bolores.

14 de dezembro de 2014

Presente II

Tenho uma certeza: as coisas que eu digo são mais fracas do que o tempo. Aliás, o tempo é mais forte do que as palavras que gravo por aí. Ou seja, um dado Presente I não é o mesmo que um Presente II. O que foi já um presente (e já o descrevo como passado), agora é passado. Mesmo o agora, esse também já o é. Ou foi. 
O que digo hoje, não é tido como ontem. O tempo é que dá o valor às coisas, o tempo é que as torna reais, que as transforma, no fundo, naquilo que ele quer. O que eu disse ontem, há uma semana, há um mês ou há um ano não é dependente de mim mas do que o tempo lhes quer dizer. De que me serviu tudo o que eu disse, escrevi ou expressei? Não sei, o tempo é que sabe. Conheço, agora, a razão da expressão de que "só o tempo o dirá".
É essa a realidade, as nossas intenções são manipuladas pelo tempo, ele detém a capacidade de mudar tudo, de tornar tudo passado, desactualizado, inexistente. Passa o tempo e passam as forças do que eu disse. Eu e todos. À medida que se te torna mais tarde, tenho medo que seja isso mesmo: tarde demais.
O tempo é o piloto do presente, ele conduz o nosso caminho e de quem está presente. O que passou não passa disso, de passado, lá atrás, e agora já não é. Estará na força do tempo determinar que o presente seja presente mesmo no futuro? Estamos num braço de ferro constante com o tempo. E por mais que o tentemos aproveitar, não podemos nem devemos deixar que ele nos vença. Mas é isso, ele é mais forte e não puxa a alavanca do travão. Passa, passa, e quem não embarcar, fica lá: no tempo.
De resto, que certezas é que tenho? Penso todos os dias que tenho muitas, mas engano-me. O que eu asseguro ser meu agora, amanhã já não o é.
Não é fácil lidar com a temporalidade. Tem manhas como tudo o que há por aí. Inventou o futuro para nos iludir, para nos motivar ou para haver lugar para a esperança. Mas é ao engano, a força está nele mesmo, na forma como ele quer correr como um rio ou passar por nós como o vento.
Mesmo assim, ainda bem que há futuro e todas essas coisas que ele insere nas nossas vidas: um dia, o tempo vai deixar-me vencer o braço de ferro. Talvez não, mas no futuro fica a esperança. No presente, estão os passados com alguns presentes. É pena que os passados sejam memórias e, algumas vezes, gravitacionais que não nos deixam ser co-pilotos desta jornada.

15 de julho de 2014

Presente I

Existem dois pontos separados por uma distância que não se consegue medir. Não há uma medida que se possa apresentar e calculá-la é anedótico porque não dá. Por não existir tal número, muitas são as vezes em que se confundem esses dois pontos com um só. E isso é positivo, embora não devamos negar a individualidade de cada um. Funciona entre um e outro, e por isso é que têm que ser dois - e eu digo que são dois -, mesmo não sabendo o que é que os separa. (Então, porque é que não é só um?). Deve ser mesmo a necessidade de haver um processo entre duas partes que institui a distinção entre ponto um e ponto dois. É abstracto e conceptual. O prático disto é difícil de visualizar dada a falta de dados. Gera-se um processo que se torna singular, e especial, porque funde numa só existência essas partes para criar tal fenómeno que abordo aqui. Nesse uno, essa união única, vagueiam silêncios visuais, gráficos e sonoros. Não há o que descreva melhor o sentimento do que o próprio sentimento em si. Palavras não chegam, não! O que se diz é quase inútil ao lado daquilo que o coração sente e a barriga sente e as pernas sentem. Olhos nos olhos e "não digas nada". É isto, as palavras são secundárias aqui. Há uma distância e um silêncio a separar duas partes que são um elo, uma só, inseparáveis como o silêncio do som, a distância do vácuo e uma mão da outra. Não sei explicar. Existem dois pontos que, quando são apenas um, têm um nome: é amor.

1 de março de 2014

Acredita, Democracia não é o regime perfeito

Desenganem-se os que pensam que a Democracia é o sistema perfeito, o protótipo da excelência. Desenganem-se os que acreditam que é a Democracia a doutrina oposta aos totalitarismos e às ditaduras. Não é. A Democracia é apenas a ideia que mais se aproxima disso, o regime que mais facilmente agrada à maioria e que permite a existência de menos males. Mas eles também existem e a Democracia não está isenta de privações e de limites. E sabem o extraordinário? Ainda bem!
Ainda bem que os regimes democráticos não são totalmente opostos aos totalitarismos, felizmente há espaço nas democracias para impor limites e para criar barreiras.
Soube de uma iniciativa - há uns dias - que pretendia manifestar a liberdade de expressão. Não era contra a liberdade de expressão, não, era a favor. O intuito era rechear de tinta os muros de uma faculdade de Lisboa, em plena Avenida de Berna, com palavras e símbolos de reacção, tentando com isto manter viva a liberdade de nos exprimirmos. Depois, decorreria uma vigília durante toda a noite para evitar que a Câmara de Lisboa enviasse pessoas para o local para eliminar todas as pinturas - isto é, limpar a sujidade que o grupinho decidiu fazer.
Se houvesse quem pintasse de branco os muros - outra vez - era, aposto, apelidado de PIDE ou anti-libertador, sabe Deus que mais.
A minha questão é: o que é isto? A sério, o que é isto? De que se trata isto? Sujar uma das ruas mais movimentadas da capital do país, de uma faculdade prestigiada internacionalmente, o local por onde passam pessoas diariamente, completamente alheias a estes movimentos rebeldes e juniores e que têm de ser confrontadas com a explosão hormonal dos reaccionários?
Isso é liberdade de expressão? Podermos estragar o que é de todos porque acreditamos que isso significa sermos livres para nos exprimirmos? Não, isso é liberdade a mais. E quanto maior é a liberdade, maior é a facilidade em destruí-la. A tolerância tem que ser aplicada a tudo, excepto à intolerância. Se suportarmos os intelorantes, então eles vão acabar com a tolerância. Trata-se do mesmo: se a liberdade for tanta quanto se acredita que a Democracia permite, então vamos acabar por erradicar todas as liberdades que temos e que ganhámos. Há que haver espaço para limites, para barreiras e margens que não nos permitam passar do suportável.
Destruir do que é de todos para defender uma causa não é saudável. Usar a liberdade de expressão para apelar às liberdades totais também não é correcto. Os livres de expressão que não ousem pintar os muros que tenho em frente à minha casa. O que seria eu acordar, abrir a janela e olhar para uma parede pintada com os encarnados que eles tanto gostam. Aí, onde é que estava a minha liberdade de olhar para uma parede que eu gostava? Se pintaram as paredes da Avenida de Berna, perdi a liberdade de passar numa rua limpa, com paredes simpáticas, e passei a caminhar num espaço monopolizado pelos ideais de um grupo que apela à liberdade de expressão. Mas à de todos ou à que eles acreditam ser a melhor? Se assim é, não estarão eles próximos dos ideais totalitaristas?

20 de dezembro de 2013

Alguma vez viste um triângulo equilátero?

Alguma vez viste um triângulo equilátero? Diz-me, alguma vez olhaste para um triângulo e ele tinha, realmente, todos os lados iguais e, por isso, todos os ângulos internos com o mesmo grau?
Se a tua resposta é sim, deixa-me desenganar-te: nunca viste. É verdade, nunca viste porque eles «não» existem. Existe a definição. Existe o conceito e existe a imagem dele no teu cérebro. Um triângulo equilátero perfeito só existe quando imaginado.
Nunca, materializado, se conseguiu desenhar um triângulo equilátero perfeito, com todos os lados e ângulos iguais. Há sempre uma diferença numa das partes, as medidas nunca são as mesmas, os graus nunca são os mesmos para os três pontos. Tu conheces a definição de equilátero, de perfeito e de triângulo. E por isso consegues tê-lo, por isso ele existe, mas não numa manifestação física. Se medires com uma régua, os centímetros podem ser iguais, os milímetros até... Mas por detrás de uma medida, se ampliarmos com uma lupa hipotética, vamos encontrar outras medidas. E se continuarmos a ampliar o campo, vamos encontrar sempre novas medidas. Chamemos-lhes infinitímetros. Algures, haverá uma diferença numa das partes.
Por falar em manifestações: alguma vez viste, efectivamente, um protesto contra ti porque acreditas em triângulos equiláteros perfeitos? Alguma vez foste criticado por acreditares neles? É absurdo dizer que sim.
Pois eu já. Não que tenha sido contra os triângulos, mas qualquer coisa de semelhante.
É que eu nunca vi Deus, não! Mas tenho a ideia Dele. E sei o que Ele é. E, embora não haja Dele uma manifestação física, há protestos, descriminação e críticas.
No fundo, trata-se do mesmo: existe um conceito, existe um reconhecimento e uma crença de que é verdade. Mas, pena, não vem manifestado fisicamente nos livros de matemática.
Eu acredito, tanto em triângulos equiláteros perfeitos como em Deus.
Estou, já, à espera da primeira crítica. Nada me demoverá de acreditar Nele. Também não tenciono manifestar-me em frente às editoras de livros de matemática que imprimem triângulos em papel e me dizem que têm todos os lados e ângulos iguais.

10 de outubro de 2013

Tão estranho quanto o campo

Os campos são estranhos. Aliás, eles são únicos. Únicos não é o mesmo que estranhos, claro. Mas eles, sendo únicos, às vezes são estranhos. Eu adoro-os! Mas não deixam de ter ali qualquer coisa que me irrita.
Eu sou do campo e moro na cidade. Eu vivo na cidade a maior parte do meu tempo. E quando vou ao campo, na maior parte das vezes, vejo-o tão estranho mas, ao mesmo tempo, tão natural que não deixo de me sentir parte dele. E eu também sou estranho, devo dizer.
O campo é o espaço natural, onde a sua maior ocupação é o vazio. O som que melhor se ouve é o silêncio ou, de quando em vez, uns passarinhos a largarem-se das árvores porque uma motorizada com um senhor passou. As cores são quase sempre neutras. Os brancos da cal das paredes, o cinzento do alcatrão e o negro da noite com umas pontadas brilhantes a que chamamos estrelas.
Mas a maior estrela no meio disto tudo é mesmo o campo. Ele é transformado pelas necessidades do Homem mas não deixa de ser puro. As ervas, a cultura (não a cultura do culturalismo mas a cultura do cultivo), também a cultura (desta vez, do culturalismo), as caras cheiinhas de rugas, os panos aos quadrados e as camisas de flanela com as boinas dos agricultores.
O mais estranho é que lá, no campo, com aquela brisa única, o cheiro único, o ar único, aquelas cores neutras soam-me às teclas de um piano: são pretas e brancas mas têm sons de todas as cores.
As árvores estão sempre lá. Anos e anos sem fim. A erva seca todos os Verões mas reaparece quando as gotas de chuva começam a cair. Bestial é ver o fumo a sair das chaminés no inverno frio. É que o frio parece mais frio no campo. E a chuva parece que molha mais ainda. Mas nos filmes beijar à chuva é bom, porque é que no campo não há-de ser bom estar molhado? Não há centros comerciais onde ir, não há tribunais onde prestar declarações, não há cidade onde passear para que bons olhos nos vejam. No campo é tudo natural. Andar molhado lá é andar conforme a natureza. Na cidade é brejeiro e sujo. Mas é só água.
A estranheza do campo parece-me boa. É como quando nos sentimos apaixonados por alguém, vê só! Cores neutras parecem-nos uma infinidade de cores, o silêncio de outra voz às vezes é o melhor som, estarmos molhados perante alguém de quem gostamos não nos aflije... E os problemas temos que vê-los como às ervas. Se secarem, algum tempo depois há-de crescer. Basta esperar que umas gotinhas de vontade caiam sobre nós.

“Sem liberdade de criticar, não existe elogio sincero.”
(Pierre Beaumarchais)

21 de agosto de 2013

Usa o objecto em que te tornaram

As pessoas vagueiam-se pelas ruas à procura de qualquer coisa que nem sabem bem o que é. Vão vivendo e nem se apercebem que os dias passam. Todos os dias se levantam e sabem que têm coisas para fazer porque têm obrigações a cumprir. Mas não percebem que devem tirar o máximo proveito para se aproveitarem.
Parece-me que as pessoas estão habituadas a terem um corpo, que dizem ser sua propriedade, mas o uso nem sequer é delas! As pessoas são usadas pela vida, pelas ideias do mundo, pelos pensamentos que possuem e que provêm dos outros. Toda a gente recebe estímulos vários, informações novas a toda a hora e aceitam-nas sem sequer duvidar da sua verdade. O corpo é o objecto que as pessoas usam para materializar aquilo que têm para fazer, aquilo que recebem do mundo como obrigações diárias e que resultam em prejuízos se não efectuadas.
No nosso corpo mandamos nós. Aliás, pensamos nós. Somos todos objectos dos objectivos dos outros e da outra que é a vida!
Andamos por aí e nem nos apreciamos a nós, mal apreciamos os outros e quase nada vemos no meio da rotina em que estamos enfiados... E que também acaba por mandar em nós!
Vamos tirar um dia para sermos nós a mandar: amanhã levanta-te, olha e vê o que se cruza contigo. Saboreia as palavras que te dizem em vez de apenas permitir que elas entrem nos teus ouvidos. Sente os cheiros das ruas, vais descobrir que não é só fumo dos carros. Olha para as pessoas e não vejas o preconceito que te foi administrado; vais ver que são mais giras. Toca no vento e mergulha nos becos para apreciares a cidade, de certeza que te vais sentir um turista com a quantidade de coisas que vais descobrir.
Amanhã, olha para ti e não vejas quem tu estás, vê quem tu queres ser!
E todos os dias pensa assim, porque todos os dias há um amanhã. Aproveita que tens de vaguear por aí segundo ordens de outros para poderes mandar no teu percurso. A meta é a mesma, mas não vás por onde te dizem, vai por onde queres. Chegas lá na mesma!

“Sem liberdade de criticar, não existe elogio sincero.”
(Pierre Beaumarchais)

21 de julho de 2013

Natureza que és tu

A natureza tem tudo
O que tu podes querer.
O teu abraço está ausente
Mas o calor do sol
Aquece o meu braço
Da mesma maneira.

Talvez não da mesma
Mas algo semelhante.
Compensa o facto de
Sentir um calor
Em mim
Que me lembra de ti.
Ou do teu abraço.

Não estando contigo
A natureza dá-me o que eu
Quero.
E eu quero-te.
Mas sem ti,
O calor está aqui.
Não só no braço
Como em todo o meu eu.

Não és tu,
Não.

Mas és tu na mesma.

Porque o amor também
Não se sente
Mas existe.

Não sinto como um toque,
Não o cheiro nem o vejo.
Mas tenho-o.

É como o teu abraço
Da natureza que é.

Não o tenho,
Mas continua aqui.
Porque o sinto

Natural como o que sinto.


18. JULHO. 2013

7 de julho de 2013

Uma tentativa

A única razão do ser
É não ter mais do que a noção de ser.
Ser alguma coisa mas saber
Que não se é nada.
Só ser,
Isso é ser.

Pertencer é igual.
Não se pertence a nada
A não ser a nós mesmos.
Aliás,
A mim mesmo.
Tu és tu e eu sou eu.

Mas eu sei que te pertenço
Mas que não.
Porque pertencer
É apenas ser.
E ser é só ser,
Não pertencer a nada,
Mas pertencer ao ser
De alguma coisa ser.

19 de abril de 2013

Um português chamado Fado

São os sentidos. São as sensações, os gestos, os sentimentos, os cheiros, as cores e os sabores. As vistas, as expressões. São os sons. É o Fado. É português.
É uma autenticidade, uma origem e uma característica. É Portugal. É mais do que um som a tocar, é mais, muito mais, que a expansão no tempo e no espaço de simples ondas sonoras que se propagam na atmosfera. Quem tem Fado, tem Portugal.
Quem ouve Fado, quem o percebe e o entende, gosta de Fado. É uma paixão única, algo que não se obtém de outra maneira. No Fado encontra-se tudo o que é do extremo ocidente da Europa, tudo o que faz parte deste canto que é tão grande e, ao mesmo tempo, tão pequenino para conter tanta coisa grande numa coisa tão pequenina que se escreve com quatro letras: Fado. Fado, Fado, Fado.
É uma palavra que não significa nada se não for associada ao que é em si. É Lisboa pura, a calçada, o eléctrico, as tascas de Alfama, o Terreiro do Paço e as gaivotas. É uma guitarra construída com o amor que vem do som das cordas. São os rostos rugosos dos idosos. São os naipes das cartas, o dominó e um copo de vinho tinto. É o cheiro a sardinha assada, é o cheiro a broa de milho e a caldo verde. É o cheiro a mar, a rio, o cheiro a alfazema. O chouriço a assar no barro, o vinho a fermentar no barril ou no lagar. É o toque único do guitarrista, é o ouvido apurado e a lágrima de quem ouve. E de quem canta. É Fado.
Vai do Norte ao Sul, de Este a Oeste. Do litoral ao interior, o Fado percorre todo o país. E extravasa-o. É algo único. É autêntico e não há igual. É o brilho dourado dos brincos de ouro das pescadoras do Algarve, é o amarelo e o cheiro a palha dos campos do Alentejo, é do cheiro a gado do Ribatejo, é da cor da calçada portuguesa das ruas de Lisboa e o cheiro a roupa lavada das ruas de Alfama e da Ribeira do Porto. É dos estudantes de Coimbra e dos amantes de Braga. É da Nazaré e das fronteiras de Espanha. É da cor do Rio Tejo e do Rio Douro. É do sabor do que é típico de Portugal. Quem ouve Fado, ouve falar de Portugal e do mundo. E, no mundo, quem ouve Fado, conhece o que é a cultura portuguesa, o que é o sentir-se português, o que é ter orgulho em Portugal. Não há, na cultura musical, maior cultura espelhada num som. O Fado tem um poder simples mas único. Nada o faz tão bem e de maneira tão bela. É um estilo de vida, um hobbie, uma entrega. Quem o faz, sente em si uma coisa que mais ninguém sente. São os aplausos de quem ouve, são as palavras no fim. É o silêncio no momento, é a garra e o grito que mostram a vivacidade do Fado, a pureza que ele tem e que ele transmite. São os arrepios, os negros dos xailes, os barcos, os copos de água-pé, os encarnados e os xadrezes das toalhas das Casas de Fado. São os anos passados numa antítese com o Fado que é destino. As amarguras da vida. É uma partilha, de todos, demonstrada por uma entidade que se sobressai para cantar ao mundo o que é ser português. São as árvores, os ventos, o sol e a chuva. É o fim da tarde e a noite longa. És tu e eu. Somos nós. É a gente da minha terra, são as minhas raízes. É uma tristeza e uma alegria. É um sentimento tão diferente que se torna autêntico no momento e não é passível de explicação. Ou se ouve e se conhece, ou se ouve e se percebe, ou nunca se saberá do que se está a falar. É por isso que é uma arte, porque é uma arte dentro desta cultura, tão limitada. Não é limitada em termos de qualidade mas sim de quantidade. Se fosse fácil, seria Pop, mas não o faz quem quer, faz quem sente. Não escreve quem quer, escreve quem sabe, não toca quem quer, toca quem se abraça a uma guitarra com a missão de a tornar única e indispensável à transmissão daquela palavra tão pura.
É português e Portugal. É único e faz de mim um orgulhoso de ser quem sou. De ser português, de saber ouvir música e de saber ouvir e gostar do Fado. Gostar de Fado é mais do que gostar de música. É gostar deste país e sentir o que é amar e sentir o que é a saudade. Cada um tem a sua. É como a alma. E não é incrível que o Fado, ele mesmo, transmita isso?


“Sem liberdade de criticar, não existe elogio sincero.”
(Pierre Beaumarchais)